Dessa vez nao passa! Talvez o que mais se fotografou e mais representou realmente o propòsito de socializacao da nossa viagem foram os cachorros. Sao momentos muito especiais em que compartimos da vida na rua, nas estradas em busca de comida, e um lugar quentinho pra dormir. Sao muitos cachorros grandes e bem cuidados. Esse da foto apelidamos de Milodòn, trabalha com turismo receptivo em El Chalten.

Desde nossa ùltima atualizacao em El Calafate, muita coisa aconteceu com os ciclodiplomatas que seguem driblando os conflitos fronteiricos existentes entre Chile e Argentina e se tornam agora o alvo (nao nòs, os conflitos)  de nossas acoes visando incentivar o uso da bicicleta nessa regiao. Em El Chaltèn, fomos muito bem recebidos pelo guarda-parque Pablo no Centro de Informacoes do Parque Nacional Los Glaciares.  O espaco todo è bem especial, com sala multimidia para a exibicao de filmes e toda uma estrutura que mostra o que o parque tem de especial. Assistimos alguns filmes sobre escalada e um outro muito interessante que retrata a vida dos Guarda Parques (chora Soldier!), chamado ´´La Delgada Linea Verde´´. Foco bem direcionado para a escalada, sendo El Chaltèn chamada de capital nacional do Trekking (Argentina). Fato semi-inèdito:essa regiao do parque disponibiliza uma trilha para bicicletas e pedestres, com preferencia de passagem para os ciclistas. No ano passado encontramos isso tambem no Parque Nacional Los Arryanes, em Villa La Angostura, Argentina.

Ali chegamos ao final de um longo perìodo de 15 dias de chuva e as trilhas todas estavam inundadas. Aproveitamos para ir ouvir o Reggae-Ska dos ´´Los Siete Venas from Del Monte´´, altamente recomendado. Recuperados, tomamos a estrada em direcao daquilo que seria o ´´filè´´ da nossa viagem. Tanto no Ushuaia, onde tentamos passar ao lado Chileno para a Baìa Yendegaia (post 2) como na saìda do Parque Nacional Torres del Paine em direcao a El Calafate (Laguna Azul), nao pudemos cruzar a fronteira devido a ausencia de um passo fronteirico habilitado, fazendo com que tivessemos que dar uma volta enorme, por estradas mais movimentadas e menos atrativas. Devido a uma sèrie de interesses economico-turisticos tanto de Chile como Argentina, nao lhes convèm habilitar aduanas nos trechos citados. Eis uma nova bandeira a ser aqui levantada. Prova disso,  o caminho que estavamos prestes a percorrer. Entre El Chalten (Argentina) e Villa O`Higgins (Chile) existe uma aduana temporària que funciona entre Novembro e Abril. Sao 40km pedalados atè Lago del Desierto, onde se toma um barco de 30 min que te deixa na porta do Paraìso. Um paraìso de raìzes, pedras, valas, e muita, mas MUITA lama.

Rodas  de chocolate, um solo seriamente cavucado pelas ferraduras e muito gelo derretido pra beber no caminho. Como optei por dedicar mais tempo a esse trecho, observei o monte Fitz Roy sò de longe,

e portanto tive a cèlebre experiencia de passar um dia completamente sozinho no mato desconhecido sem encontrar seres humanos. Com muito vento, as àrvores balancavam bastante, e uma sèrie de sons bizarros me entretiam naquela empurracao de bicicleta com alforges montanha acima.  O lado argentino està melhor preservado e pode ser recorrido somente a pè, a cavalo ou em bicicleta. Pedala-se pouco e empurra-se muito. Hà ainda a opcao de alugar cavalos e assisti-los carregar suas coisas.

Jà no lado chileno, uma ladeira digna de estender as maos ao cèu e se perguntar: o que foi que eu fiz pra merecer isto? Bordas cheias de vazio ao lado e muita pedra solta, e o visual alucinante do Lago O`Higgins desde Candelario Mansilla. Trata-se de uma estancia que serviu de apoio ao servico fronteirico durante muitos anos, onde hoje vivem somente D.Justa e Don Geronimo. Ela tem um jardim borbulhando de flores que hipnotizam o nariz de qualquer um que passe por ali.

Um clima de casa da vovò intenso, pao caseiro e todos os dias as 20hs, a ùnica refeicao servida num raio de muitos km.Pela cara do Rafa dà pra imaginar o quanto estava bom o Guizado de ervilhas.

Como os que foram ao Fitz Roy nao chegavam  nunca, usei isso de desculpa pra ir em busca deles, o que me daria a oportunidade de recorrer aquele trecho abencoado 2 vezes mais, e sem alforges. Para sair de Candelario Mansilla, teria de subir aquele trecho loooooooooooongo e inclinado do dia anterior, e como se isso nao bastasse para dar bom-dia aos joelhos, logo na saìda meu pè escorregou e dei aquela velha e c0nhecida joelhada na mesa da bicicleta, onde vai preso o guidao. Foi uma experiencia muito interessante, porque muitas vezes ao sentirmos uma dor intensa, sentimos vontade de gritar e nao o fazemos seja por vergonha ou pra nao assustar as criancas. Como ali nao tinha ninguèm vendo nem ouvindo…

Isso chamou a atencao do Sr. Ricardo, filho de D. Justa, que passa os veroes ali. Ao encontra-lo, me disse que tambem havia machucado o joelho mas nao podia parar de trabalhar, e isso foi o que me motivou a seguir pedalando, mesmo com o joelho cataclismàtico. Ele enchia a cacamba da caminhonete de lenha e me pediu ajuda para deitar uma àrvore que havia cortado mas nao conseguiu deitar.

Fiquei por ali mais alguns instantes pensando sobre aquelas coisas e tentando estabelecer uma relacao amigavel com o meu joelho. Foi um momento muito especial, com um sol confortante e um isolamento saudàvel. Pela foto pode-se notar a total integracao ao ambiente.

Toda aquela essencia da vida presente no ar me fizeram esquecer a relacao joelho-mesa e logo estava no lado Argentino. A trilha estava muito mais seca que no dia anterior e por estar sem os alforges tudo me surpreendia a cada trecho. Mais veloz, mais tècnico e muito, mas muito mais divertido. E no meio dessa diversao toda encontrei o resto da turma e tambèm os dois cicloviajerosFinlandeses que conhecemos em Rio Grande e temos encontrado muitas vezes aqui e ali. Me sentia bem vadio ali sem alforges e assistindo o perrengue do pessoal.  Um dos finlandeses usava uma carreta ao invès de alforges, e em alguns moment0s a coisa complicava. Muita paciencia e solidariedade.

Hora de pular pra dentro do QUETRU, embarcacao que nos levaria atè a ùltima pontinha sul da Carretera Austral. E mesmo se tratando de navegacao em um lago, os ventos chacoalham bastante.

Chegamos entao a Carretera Austral, e os 7 km que separavam o porto da cidadezinha de Villa O`Higgins nos fizeram dormir sonhando em continuar aquilo no dia seguinte. A estrada de ripio relativamente nova, parece ser màgica. Em alguns pontos nao se tem a impressao de estar em uma estrada de terra, de tao bem compactada, mas ela nao è inteira assim.

Seguimos entao por 30 km, mas a alegria durou pouc0. A foto abaixo mostra nosso drama.

O Mecanismo que liga as catracas ao cubo è uma parte safada da bicicleta, na qual nunca mexemos e atè h0je nunca vi nenhuma oficina que a inclua nos itens revisados. Ao falhar, a catraca gira e a roda nao.

Estavamos completamente sem um prostituto, e agora sem locomocao independente.  A Natureza imperou uma vez mais e bem ao lado de onde estàvamos havia uma cabana semi-abandonada. Haviam objetos pessoais e sinais de que alguem havia estado ali, mas a casa estava toda aberta e largada. Nos sentimos como o Alexander Supertramp (Chiquito) encontrando o onibus em  Into the Wild. Fogao a lenha, calorzinho, noite tranquila.

Salva de palmas para o maestro da Figòn bicicletas, em Coyhaique, que como poucos mecanicos de bicicleta, mantèm pecas antigas com potencial de reutilizacao. Canibalismo leve num cubo antigo ali parado e tudo ficou bem.

Coyhaique foi tambèm, entre os dias 5 e 7 de fevereiro,  o palco do Banff M0untain Film Festival, e decidimos aproveitar a oportunidade. Muitos filmes de escalada, base-jump, montanhismo e alguns de bicicleta. Tentamos mostrar o clip da  primeira parte de nosso projeto (http://www.youtube.com/watch?v=g9RypUSTIck), mas ficou pras pròximas edicoes do festival, agora em Puerto Natales e Punta Arenas.

Foi meio frustrante, pois estava tudo certo, estàvamos na programacao, mas em cima da hora a conversa mudou e nao estaremos presentes nas exibicoes.

De qualquer maneira, o festival foi muito valioso para que pudessemos desenvolver um olhar crìtico em relacao a documentarios e filmes de aventura. O tema das represas aqui na provincia de Aysen està fervendo, e isso se mostrou claramente nas producoes locais.

Em Coyhaique funciona a sede do movimento Patagonia Sin Represas, comandada por Peter Hartmann (www.aisenreservadevida.cl), que conhecemos num dos intervalos do festival e nos recebeu no quartel general do movimento.

Nossos parceiros do Ecobike se aproximam rumo ao Sul, e hoje tivemos a alegria de encontrar nosso grande amigo Gonzalo Barros, a frente do bando de 30 cicloviajeros em defesa da Patagonia livre de Represas. Muita conversa pra por em dia.

Seguimos entao ao trecho final de nossa pedalada e agradecemos a todos que nos incentivam e emocionam por meio dos comentario.

Um grande abraco – EcoAustral 2010

Anúncios

9 Respostas to “”

  1. Arno Hübbe Filho Says:

    Valeu rapaziada!
    Escaparam do calor de quase 40graus aqui em Floripa.
    Numa viagem ao Chile também notei os cachorros de rua. São grandes e bem cuidados, e ai de quem fizer algo com eles. É comprar problema com a polícia na certa.
    Aproveitem o final da viagem.

    Abraços

  2. eduardo green Says:

    Dá-lhe galera! Que puta viagem linda hein! Cês tão com sorte, hein – encontrar um miolo de cassete nesse fim demundo!
    Bons pedais, curtam tudo! Abração :Dudu

  3. Aline Says:

    A cada foto desse relato, uma janela de liberdade pra mim que daqui acompanhos a viagem como se fosse um sonho. Não só pela maravilha do lugar e da companhia, mas porque os fatos são inusitados e não seguem a linha racional que estamos acomstumados.

    Isso sim é que é a vida como ela é!

    Estes relatos ainda virarão livro….! amo

  4. Andre Costa Says:

    Fala Galerinha!!!!

    Que lugar é esse que vcs ficaram ein!!! Mto massa, depois vou querer ver mais fotos! ehehehehe

    Abraço e força na butina ae!!

  5. Paula Muniz Says:

    Que maravilha de viagem!!
    Absorvam cada paisagem, cheiro, vento frio e pedaço de terra/gelo… Para depois contarem tudo, tin-tin por tin-tin! haha
    E reforço o comentário do André: quero ver mais fotos!!

    Beijos – literalmente – acalorados brasileiros!

  6. Lays Says:

    Não tenho palavras, só digo que a ansiedade por notícias que senti nos últimos dias foi sendo substituída, a cada relato, por uma enorme paz e alegria em ver no brilho dos vossos olhos e nos sorrisos toda a alegria e prazer encontradas tão facilmente pelos sábios, os verdadeiros e completos sábios, nas coisas simples e naturais da vida. Isso é SER HUMANO, o resto é fruto da civilização e condicionamento desenfreados. LOViU hermanito!!!! bjo.

  7. Lays Says:

    Esqueci de dizer…. vocês aí VIAJANDO…. perderam o show da Beoncé em Floripa!!!!!!! kuakuakuakua……………………………..bjos.

  8. Cintia Salas Says:

    …que lindos relatos! llenan mi corazon de energia, esperanza y alegria! suerte! mucha, mucha suerte!

  9. Fúlvio Marcos Costa Says:

    Meu nome é Fúlvio de Araranguá-SC, venho através deste mencionar que uma viagem destas é inesquecível para qualquer ser humano, eu sempre tive muita vontade de participar dessas aventuras, mais nunca foi possível por nao ter parceiros para isso, então lendo seus relatos fiquei abismado e emocionado com tanta aventura, vlw rapazes continuem sempre incentivando o bem maior que é a natureza…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: