Balancando um pouco por conta da navegacao e confortavelmente instalado na minha´´butaca´´ sem nùmero, faco um breve intervalo para tirar o Anorak. Sim, finalmente sinto calor. Depois de uma inèrcia fenomenal que nos prendia a cidade de Coyhaique, capital da provìncia de Aisèn, finalmente conseguimos nos libertar e tomamos rumo novamente. Ali encontramos um ´´maestro´´de bicicletas, pecas de reposicao e muitos outros cicloviajeros. Vale a pena destacar aqui as campanhas pùblicas como a do ´´Natal sem presentes bèlicos´´.

Ao sair de Coyhaique optamos pelo caminho de ripio, 40km mais longo (64 de asfalto X 104  de pavimento), embora mais chacoalhado.

A passagem da ´´Travesia Ecobike Patagonia Sin Represas´´ por ali tambèm motivou o abaixo assinado a favor do plano cicloviàrio para a cidade, que nao tem absolutamente nada feito para as bicicletas.

Entretido com as ladeiras de ripio, fui surpreendido por um rombo no meu pneu traseiro. Aì entao entrou em acao a fita anti-furo, cuja funcionalidade havìamos questionado atè entao.

Em meio a muito ´´nada´´, nos surge um senhor extremamente excentrico, com calcas de pele de animal, esporas lustradas e um domìnio sobrenatural de seu cavalo. Ao saber da nossa situacao, nos indicou  que rodàssemos atè a pròxima vila (Villa Ortega-450 habitantes) e nos hospedàssemos  na casa de sua filha. Hospitalidade surpreendente. Talvez por ver as bicicletas adesivadas com ´´Patagonia Sin Represas´´, percebeu que havia ali alguma afinidade.

Em um lugar tao pequeno e tao distante de tudo, nao imaginava que encontraria um pneu. Rafael foi na frente e logo voltou com as boas novas.  ´´Nao te preocupes cumpàdi,  true rasta family nos espera. Tem uma bici de DH e duas rodas sobrando´´.

Logo ao chegarmos, nos entregou as rodas para que escolhessemos, indicou o local do quintal para que acampàssemos e nos convidou a entrar e compartilhar. Ao entrarmos na casa, entrava no forno uma assadeira cheia de pao caseiro, e ali ´´nos quedamos´´ a conversar noite adentro acerca dos temas atuais da Patagonia, ao som de nada mais nada menos que Clementina de Jesus. Destaque extra-especial para as criancas lindas e carinhosas. Nico (8), Sofia (6) e Newen (2), que recebeu o nome Mapuche que significa ´´forca interior´´ ao nascer prematuro aos 6 meses, com apenas 1kg. Senti ali uma afinidade prematura e conversamos um pouco sem palavras, rindo bastante.

Pneu novo, bucho cheio de mermeladas feitas com frutas da regiao (hmmmm…) e um lindo dia de sol. Raro. Ao chegarmos a vila de Manihuales, fomos alvejados pou um ciclo-ser auto-denominado ´´cazador de ciclistas´´.

Nos encontrou em um momento contemplativo, dizendo que tinha uma hospedagem e nao cobrava de ciclistas.  Religioso, guardava trechos da Bìblia que nos dizem que ´´ pisemos fuerte en la vida´´, sendo esta a motivacao de pedalar e ajudar os que pedalam. 21 quartos com camas, banho quente e cozinha. Creio que esta tenha sido a noite mais estrelada atè entao. Jorge, recebeu o local abandonado e agora pensa em tranforma-lo em um parador para cicloviajantes, com oficina e pecas de reposicao. Muito bem dormidos, seguimos dividindo a via com os caminhoes que levam salmao de um criadouro a outro, em tanques com atmosfera de nitrogenio.

Villa Amengual nos acolheu, onde encontramos ´´El Indio´´, polìtico local que em muito contribuiu com suas opinioes a respeito das represas na Patagonia. Gostava do Pinochet, da Carretera, mas nao das represas.

Agradecimento especial tambèm a Tania e Carolina, que pedalavam rumo ao sul, para tentar alcancar o pessoal do EcoBike-Patagonia Sin Represas. Estavam atrasadas e se encontrariam com o grupo em Coyhaique. Muito interessadas na causa e no projeto, via-se a vontade de fazer algo pela Patagonia e literalmente vestiram a camisa do nosso projeto e saìram entrevistando a comunidade. Ajuda sem preco. Gravaram tambèm toda a entrevista com o legìtimo ìndio patagonico que nos contava com calma e sarcasmo a història do desenvolvimento da regiao e as dificuldades geradas pelo isolamento de quem ali viveu antes da Carretera, transportando tudo a cavalo, sem informacao e acesso as melhorias que se resumiam às partes mais acessìveis do paìs.

Esfacelou-se. De volta ao ripio, fomos magneticamente atraìdos por um quiosque pequenino, com maravilhas gastronomicas expostas aos transeuntes. Ve-se na foto que falta 1 pedaco de cada (framboesa, maca e limao), que nos fez pensar que embora viajemos juntos, as percepcoes e experiencias continuam sendo individualmente diferentes. O In-La-Kech-eu sou o outro voce, incluiu a Samanta, que nao falou nada mas pareceu sentir a mensagem daquele ato.

Estrada linda, muita bajada, e um pit-stop na ponte pra observar aqueles saborosos salmoes lutando contra as pedras e a correnteza ao subirem o rio. Chegàvamos entao a uma das ladeiras mais esperadas, jà dentro do Parque Nacional Queulat. Uma casa abandonada a beira da estrada virou o berco destas criancas que cada vez mais questionavam o merecimento de tanto arrego.

Destaque especialmente negativo para a administracao do Parque Nacional Queulat, que em nada contribuiu para o nosso projeto. Ali representada por um senhor com ´´ olhos de cifra$´´, que se negou a nos receber e questionou a veracidade da carta de apoio que recebeu por email do reitor de nossa universidade. Jah bless, virei as costas e saì ´´ pisando fuerte en la vida´´ para manter o animal que vive dentro de mim na coleira. A mudanca de planos nos fez avancar pedalando noite adentro, e jà perto das 22hs o mesmo drama que me assolava (bagageiro quebrado) atingiu tambèm o Mauricio.

A Natureza nao falha. Sempre que encontrares um sujeito como o acima descrito, podes ter certeza que um ´´buena onda´´ estarà por vir, quando mais precisares. Em meio ao nada escuro, e sem poder avancar, conhecemos um cara que se propos  a levar a bagagem do Mau atè a proxima cidade (La Junta). Ainda nao contente em nos salvar, ofereceu sua casa para dormirmos e no dia seguinte partiu cedo e nos deixou ali, com todos os seus pertences. Um pouco de mecanica indìgena e artesanato, e os bagageiros foram ´´engessados´´.

Finalmente o primeiro mergulho, no Rio Yelcho.

Ao final deste dia, vimos nas bordas da estrada uma areia branca e fina, que nos dava uma grande e falsa alegria, por pensarmos que ali estava representada a aproximacao do litoral. Nada de areia. Ao Chegarmos a Chaitèn, percebemos que aquilo tudo eram cinzas do vulcao. Em maio de 2008 o vulcao Chaitèn derramou sobre toda a cidade um rio de cinzas que cobriu tudo e causou uma evacuacao emergencial.

Nao tivemos Carnaval, mas com certeza essa foi a quarta-feira de cinzas mais tìpica que jà vivemos.

Curioso que com isso,  o rio que por ali passa retomou o seu curso original, apòs ter sido desviado pelo home para que se criasse um novo bairro. (Natural…)

A situacao atual è curiosa. Existe em Chaitèn um fluxo  consideravel de turistas entre a ilha de Chiloè e a Carretera Austral, oferecendo boas oportunidades. Ao mesmo tempo, o governo chileno nao quer que a populacao volte para a cidade, devido aos riscos de estar pròximas ao vulcao. Sendo assim, a cidade continua sem fornecimento de àgua e luz, fazendo com que os bravos que ali insistem em viver busquem altenativas diversas de sobrevivencia, às quais o homem patagonico sempre esteve acostumado.

A ligacao com a terra onde vive, que um desenvolve ao longo de sua vida, anda junto com a liberdade de escolha de onde viver, seja perto ou longe do vulcao.  Sao comuns as històrias de senhores que viveram ali sua vida toda, e morreram ao saber que nao poderiam voltar.

Me fascina o fato  de os cidadaos continuarem pagando impostos, mesmo sem àgua e luz.

Situacao complicada que nos intriga e comove.

Deixamos aqui nosso relato, cheio de uma vontade sincera de fazer algo por esse lugar.

JAH BLESS CHAITÈN!!!

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8 Respostas to “”

  1. Lays Says:

    Lindas histórias, fotos incríveis e seres humanos maravilhosos. Um beijo no coração de todos vocês. Lê, jamais tive a audácia de te querer tão perto de mim de novo e cada vez mais vejo que você é cidadão do mundo e que seus olhos brilham proporcionalmente à distância que mantém da linha do horizonte, te amo. Lá

  2. Rony Says:

    Ai ET e galera do ecoaustral,
    Muito massa o projeto, a aventura e o blog de voces. Parabens mesmo!!

    Grande abraco
    Rony

  3. Tiago Says:

    E aí galera,,,, alucinante essa aventura que vcs tem vivido. Obrigado por proporcionar a nós este relato cheio de detalhes e imagens para que possamos sentir uma pitada de sua realização. Um grande abraço e Parabéns!

  4. Alexandra Yannakos Says:

    Congratulations!!! Felicitaciones!! Leonardo, tu y tu equipo dejaron huellas bonitas en Coyhaique.. You and your team gave us a fresh perspective on what exists and what needs to be contructed within Northern Patagonia’s communities.. I discovered with you that a biker’s perspective is very powerful: a cyclist traveler moves and observes things at a rythm that strikes the perfect balance: slow enough to be living and sharing and understanding along the way.. fast enough to gain and keep perspective on everything you see.
    Thank you for the sacrifices and energy spent in this project, a gift for all of us who met you and spoke with you along the way.
    Alexandra and Kuma-san.

    I’ll try to pedal with you all in Brazil next year.

    • Laure Kruger Says:

      Alex,
      Fais signe de vie ASAP avec moi et ta mere et ton beau-pere car on s’inquiete tous de ne plus avoir de tes nouvelles. Tu n’as peut-etre plus acces au net mais en vain j’essaie tout de meme.
      ENORMES BISES DE TOUT LE MONDE QUI T’AIME,
      Laure

  5. Carol Says:

    Tenho orgulho da coragem, disposicao e espirito aventureiro de todos vocês.
    Meu amigo de infancia, o Alienigena, sempre me incentivou ao pedal… me lembro com detalhes, ainda piveta, dos roles downhill que faziamos na Serra da Cantareira (SP).
    Ate hoje, eu me aventuro a andar de bike pela cidade de Sao Paulo… meu esporte predileto!!!
    Mando um salve cheio de carinho para todos os amantes da magrela!
    Um beijo a todos

  6. Lays Says:

    Recebi essa matéria (link abaixo) que foi publicada num site de notícias on line do Estadão – jornal impresso da cidade de São Paulo – e deixo aqui a dica pra quem quiser dar uma olhadinha…

    http://www.extremos.com.br/noticias/100223-Brasileiros-foram-a-Ushuaia-de-bicicleta.asp

    Bjos, Lays

  7. Mariana de Sa Says:

    Agora, mais que nunca, estou na espera de noticias.
    Estou preocupada por onde anda essa galera. Ainda estariam pelo Chile durante o terremoto?
    Por favor, quem tiver noticias compartilhe-as.
    Que tudo esteja bem!
    Mariana.

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